O DESPERTAR DE UM NOVO MUNDO - VEJA A LUA COM OUTROS OLHOS

QUANDO A HIPÓTESE DEIXA DE SER APENAS FICÇÃO

Durante muito tempo, a ideia de procurar vestígios de uma civilização extraterrestre na Lua foi tratada exclusivamente como ficção científica ou como especulação ufológica.

Mas existe uma diferença importante entre afirmar que uma civilização extraterrestre existe na Lua e perguntar se seria cientificamente legítimo procurar vestígios físicos de uma eventual tecnologia extraterrestre na superfície lunar.

Essa segunda questão já foi colocada no âmbito da literatura científica.

“Searching for alien artifacts on the moon”

Em 2013, Paul C. W. Davies e Robert V. Wagner publicaram na revista Acta Astronautica o artigo:

“Searching for alien artifacts on the moon”

Acta Astronautica, Volume 89, agosto–setembro de 2013, páginas 261–265.

DOI:

https://doi.org/10.1016/j.actaastro.2011.10.022

O artigo foi publicado por Elsevier e aparece indexado pela Arizona State University como contribuição científica revisada por pares.

A proposta dos autores é particularmente interessante.

Durante décadas, a busca por inteligência extraterrestre foi fortemente associada à procura de mensagens deliberadamente transmitidas, especialmente por ondas de rádio.

Davies e Wagner argumentam que a busca pode ser ampliada.

Se uma inteligência extraterrestre tivesse existido ou visitado o Sistema Solar em algum momento de sua história, ela poderia ter deixado não necessariamente uma mensagem, mas um vestígio físico.

Um objeto.

Uma modificação da superfície.

Uma estrutura.

Uma alteração ambiental.

Ou qualquer outra assinatura inequívoca de atividade tecnológica.

Essa abordagem é conhecida atualmente dentro do campo mais amplo das tecnossinaturas.

A Lua como arquivo físico

O raciocínio apresentado no artigo é simples, mas profundo.

A Lua é próxima.

Possui uma superfície que pode ser fotografada sistematicamente.

E determinadas marcas podem permanecer preservadas durante períodos extremamente longos.

Os autores reconhecem explicitamente que a probabilidade de uma tecnologia extraterrestre ter deixado artefatos na Lua é muito pequena.

Mas observam que a Lua apresenta uma vantagem extraordinária:

ela está próxima e pode conservar vestígios por imensos períodos de tempo.

Esse ponto é fundamental.

A proposta não é:

“Existem artefatos extraterrestres na Lua.”

A proposta é:

“Se existirem, podemos procurar.”

Essa diferença separa uma hipótese científica de uma afirmação extraordinária apresentada como fato.

O LRO abriu uma possibilidade inédita

O artigo de Davies e Wagner utilizou como caso de estudo o crescente banco de imagens produzido pela Lunar Reconnaissance Orbiter — LRO.

Na época da publicação, o mapeamento fotográfico da superfície lunar pelo LRO já alcançava aproximadamente 0,5 metro por pixel em determinadas imagens. Os autores observaram que esse banco de dados poderia ser examinado sistematicamente também com o objetivo de procurar possíveis assinaturas de tecnologia extraterrestre.

Essa ideia é especialmente interessante porque não exigiria necessariamente uma nova missão espacial dedicada exclusivamente à busca de alienígenas.

A mesma base de dados produzida para a ciência planetária poderia ser examinada sob outra pergunta.

Isso é uma mudança metodológica importante.

A pergunta deixa de ser:

“Podemos construir uma missão para procurar extraterrestres?”

E passa a ser:

“Podemos procurar possíveis assinaturas de artificialidade nos dados que já temos?”

Procurar artificialidade

Aqui está talvez a parte mais interessante do trabalho.

Os autores defendem uma ampliação do conceito de SETI.

Em vez de procurar apenas uma comunicação intencional, podemos procurar sinais mais gerais de artificialidade.

Uma inteligência tecnológica poderia deixar marcas deliberadas.

Mas também poderia deixar marcas não intencionais.

Da mesma forma que nossa própria civilização modifica o ambiente sem necessariamente pretender enviar uma mensagem ao cosmos.

Uma cidade vista de centenas de quilômetros de altitude é uma assinatura tecnológica.

Uma estrada é uma assinatura tecnológica.

Uma mina é uma assinatura tecnológica.

Uma barragem é uma assinatura tecnológica.

Uma alteração persistente na superfície também poderia ser uma assinatura tecnológica.

Não porque qualquer anomalia seja artificial.

Mas porque determinadas formas de organização podem ser investigadas quantitativamente.

E aqui surge um problema fascinante

Como distinguir uma estrutura artificial de uma formação natural?

Essa é provavelmente uma das questões centrais.

A natureza produz:

simetrias;

esferas;

linhas;

ângulos;

padrões repetitivos;

estruturas radiais;

concentrações minerais;

formas aproximadamente geométricas.

Portanto:

geometria, sozinha, não prova artificialidade.

Mas também seria precipitado concluir que toda estrutura geometricamente organizada precisa ser natural.

A investigação precisa considerar o conjunto.

Forma.

Escala.

Distribuição.

Regularidade.

Contexto geológico.

Composição.

Topografia.

Temperatura.

Espectro.

Relação espacial com outras estruturas.

E, principalmente, a capacidade de uma explicação natural reproduzir quantitativamente aquilo que foi observado.

O problema do nosso próprio imaginário

Existe ainda uma dificuldade adicional.

Nós procuramos tecnologia segundo aquilo que conhecemos como tecnologia.

Imaginamos naves.

Antenas.

Torres.

Edifícios.

Cidades.

Estradas.

Máquinas.

Mas uma civilização extraterrestre não teria obrigação alguma de compartilhar nossa trajetória tecnológica.

Sua arquitetura poderia ser subterrânea.

Sua infraestrutura poderia estar integrada ao ambiente.

Sua matéria-prima poderia ser completamente diferente.

Sua tecnologia poderia explorar propriedades físicas que ainda desconhecemos.

Sua organização social poderia não possuir qualquer equivalente humano.

E seus artefatos poderiam não parecer “máquinas”.

Por isso, uma busca verdadeiramente aberta precisa evitar uma definição excessivamente estreita de tecnologia.

O que Davies e Wagner realmente propuseram?

É importante não exagerar o alcance do artigo.

Davies e Wagner não afirmaram ter encontrado uma civilização extraterrestre na Lua.

Não apresentaram uma estrutura lunar como prova de tecnologia alienígena.

Não disseram que a NASA estaria escondendo construções extraterrestres.

A contribuição é metodológica:

a Lua pode ser incluída racionalmente entre os locais onde procurar possíveis vestígios físicos de inteligência extraterrestre.

E eles apontaram uma razão prática para isso:

já existe uma enorme quantidade de dados lunares disponíveis.

Portanto, uma busca sistemática por possíveis assinaturas de artificialidade poderia ser incorporada, ao menos em princípio, ao estudo desses dados.

Mais de uma década depois

Hoje, essa proposta pode ser examinada dentro de um contexto tecnológico ainda mais amplo.

Temos novos instrumentos.

Novos mosaicos.

Novas missões.

Novos sensores.

Modelos digitais de terreno.

Dados espectrais.

Informações térmicas.

Dados gravitacionais.

E conjuntos de imagens obtidos em diferentes épocas e condições de iluminação.

Isso permite algo que era muito mais difícil no passado:

comparar a mesma região lunar através de diferentes fontes independentes.

Uma suposta anomalia observada em uma única imagem pode desaparecer quando analisada em outro conjunto de dados.

Mas uma característica persistente, reproduzível e independente merece outro nível de atenção.

Não porque seja automaticamente artificial.

Mas porque sua investigação pode ser conduzida de forma objetiva.

Da hipótese ao teste

É aqui que uma investigação lunar precisa ser cuidadosa.

Não devemos começar com:

“Isso é extraterrestre.”

Devemos começar com:

“Isso existe?”

Depois:

“A medição é reproduzível?”

Depois:

“Qual é a escala?”

“Qual é a composição?”

“Qual é o contexto geológico?”

“A característica aparece em outros instrumentos?”

“Pode ser explicada por processos naturais conhecidos?”

“Quais previsões diferenciam as hipóteses?”

E somente depois podemos perguntar:

“A hipótese de origem artificial permanece compatível com os dados?”

Esse procedimento pode parecer menos emocionante.

Na realidade, ele é muito mais poderoso.

Porque permite que uma hipótese sobreviva ou seja descartada independentemente daquilo que gostaríamos que fosse verdade.

O legado da Apollo encontra o futuro

É aqui que o legado das missões Apollo se conecta com a exploração lunar contemporânea.

As fotografias obtidas pelos astronautas representam apenas uma parte do enorme arquivo produzido durante a exploração lunar.

Hoje podemos revisitá-las.

Podemos compará-las com imagens orbitais.

Podemos contextualizá-las topograficamente.

Podemos confrontá-las com informações espectrais e térmicas.

Podemos analisar regiões que, durante décadas, foram vistas apenas em fotografias bidimensionais.

A exploração lunar deixou uma herança documental que continua crescendo.

E cada nova missão acrescenta outra camada.

Talvez a pergunta mais importante seja outra

Durante muito tempo perguntamos:

“Existe vida inteligente fora da Terra?”

Talvez seja necessário dividir essa pergunta.

Uma espécie inteligente pode existir hoje.

Pode ter existido no passado.

Pode ter visitado o Sistema Solar.

Pode ter deixado sondas automatizadas.

Pode ter deixado artefatos.

Ou pode não ter deixado absolutamente nada.

São hipóteses diferentes.

E cada uma exige métodos diferentes de investigação.

A Lua é especialmente interessante para uma delas:

a possibilidade de um vestígio físico.

Não estamos afirmando que esse vestígio exista.

Estamos perguntando se seria possível detectá-lo.

E essa pergunta já pertence à ciência.


Uma pequena mudança de perspectiva

Talvez seja essa a verdadeira importância do artigo publicado em Acta Astronautica em 2013.

Ele não nos diz:

“Encontramos alienígenas na Lua.”

Ele nos diz algo muito mais interessante:

“Se a busca por inteligência extraterrestre pretende ser completa, talvez também devamos procurar seus possíveis vestígios físicos.”

E, nesse caso, a Lua é um lugar lógico para começar.

Porque está próxima.

Porque podemos observá-la.

Porque temos enormes bancos de dados.

Porque podemos retornar às mesmas regiões com instrumentos diferentes.

E porque determinadas marcas podem permanecer registradas durante períodos imensos.

Mais de meio século depois da Apollo 11, a pergunta continua aberta.

Não:

“A NASA esconde uma civilização extraterrestre na Lua?”

Mas:

“Se alguma inteligência tecnológica passou pela Lua em algum momento de sua história, o que ela teria deixado para trás — e seríamos capazes de reconhecer esse vestígio?”

Talvez essa seja uma pergunta muito mais difícil.

E, justamente por isso, muito mais interessante.


Referência científica principal

Davies, P. C. W.; Wagner, R. V. (2013). Searching for alien artifacts on the moon. Acta Astronautica, 89, 261–265.

DOI:
https://doi.org/10.1016/j.actaastro.2011.10.022

Página do trabalho na Arizona State University:
https://asu.elsevierpure.com/en/publications/searching-for-alien-artifacts-on-the-moon/

Cópia do artigo:
https://technosearch.seti.org/wp-content/uploads/2018-08/Davies%26Wagner.pdf

NASA — Lunar Reconnaissance Orbiter:
https://science.nasa.gov/mission/lro/


Talvez não seja necessário olhar mais longe.

Talvez, antes de procurar sinais de uma civilização em planetas distantes, devêssemos aprender a procurar vestígios de inteligência no lugar mais próximo que temos além da Terra.

A Lua.

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